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O significado de gestão para Vicente Falconi em uma das cartas ao planalto

O consultor de resultados teve sua série de cartas endereçadas à presidente Dilma Rousseff e publicadas pela Folha de São Paulo. Confira uma delas

19 de janeiro de 2015 12:14

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“Sem mudanças no processo os resultados permanecerão exatamente os mesmos.”
Albert Einstein

Prezada presidente,

Os pesquisadores americanos Muzafer e Carolyn Sherif e outros conduziram em 1954, na Universidade de Oklahoma, uma pesquisa muito bem sucedida sobre conflito e cooperação entre grupos e uma das hipóteses confirmadas foi: “Quando indivíduos sem qualquer tipo de relacionamento prévio são agrupados para interagir em atividades com metas em comum, produzem uma estrutura do grupo com status hierárquicos e papéis específicos.”

A conclusão óbvia dos pesquisadores foi que um sonho ou uma meta em comum agrega e organiza o grupo. De fato, constatei em minha vida que é sempre muito mais fácil concordar nos fins que nos meios. Quando se coloca um sonho ou uma meta fica mais claro a todos onde queremos chegar e o que tem de ser feito. O grupo se organiza mais facilmente para concretizar seus desejos.

PLANEJAMENTO

Gestão nada mais é que atingir metas ou resolver problemas, o que é o mesmo. Se não existem metas não há gestão! Precisamos de sonhos e metas para nosso país. Isto irá facilitar a união e a cooperação. O sonho se origina de uma chamada da liderança e as metas da formulação estratégica.

Nos governos geralmente entende-se planejamento como a confecção do Orçamento anual. Ficamos, portanto, no horizonte do ano. Nada contra o planejamento anual, mas o que precisamos ter no Brasil é a instalação de uma organização do Estado, e não do governo, nos moldes da Polícia e da Receita Federal, para fazer a formulação estratégica brasileira num horizonte de pelo menos uns 20 anos, renovada anualmente.

Uma formulação desta natureza implica em fazer muitas contas, pois todos os fatores de desenvolvimento são interligados, e envolve no processo as melhores inteligências do país, assim como especialistas estrangeiros. Em tal planejamento fatores como as mudanças climáticas e populacionais deveriam ser levados em conta. Para tanto, este organismo deveria ter recursos próprios e gestão independente.

A organização faria a formulação estratégica ampla e de longo prazo. As formulações estratégicas mais específicas e de médio prazo poderiam ser feitas a partir do planejamento dos Estados, dos municípios, energético, logístico, das comunicações, da educação, da saúde, da defesa etc.

Este exercício de formulação estratégica daria as condições de priorizar projetos e estabelecer metas concretas (Estados e municípios saberiam exatamente com o que poderiam contar) que nos permitiria crescer contínua e vigorosamente.

Quando há falta desses planejamentos, o país acaba sendo gerenciado, em seus três níveis, ao sabor das crises e acontecimentos. E isso provoca ineficiência na utilização dos recursos além de “apagões” de toda natureza. Gerenciar dessa maneira custa muito mais caro, uma vez que nem sempre os recursos, eternamente escassos, são empregados na direção e prioridades corretas.

POLÍTICA

Política é “direção a seguir”. A política deve dar a direção e as prioridades do governo dentro da formulação estratégica estabelecida.

É por esse motivo que os partidos deveriam ter seus programas obrigatoriamente bem definidos e conhecidos pela população para que suas ações no governo refletissem a vontade popular e não os interesses próprios dos políticos.

A vontade popular, que é a “direção a seguir”, deveria ser a política. A partir daí surgem as leis e os regulamentos que é a função do Congresso.

OPERAÇÃO (EXECUÇÃO)

Política não é operação do Estado. Operar o Estado é executar as ações planejadas para atingir as metas necessárias para melhor servir ao cidadão.

A máquina operacional do Estado deveria ser estável, competente e bem treinada. Essa máquina deveria ser ocupada somente por profissionais continuamente treinados de modo a se atualizarem das evoluções tecnológicas na administração do Estado.

Deveria também ter seu desempenho avaliado periodicamente e ser sempre reestruturada para atingir as metas propostas na formulação estratégica. Cada processo deve ser projetado para perseguir funções específicas (atendimento ao cidadão) e estes processos organizados numa estrutura conveniente no momento.

Atualizar estruturas e processos deveria ser uma constante, uma vez que tudo muda ao nosso redor, a exemplo das novas tecnologias, novas necessidades das populações, ameaças diferentes etc. A padronização de processos e operações e o treinamento no trabalho deveriam ser religião.

Precisamos construir confiança na burocracia estatal, valorizar ideias criativas e dar liberdade de trabalho. As consequências de uma boa máquina operacional do Estado seriam custos muito mais baixos e um atendimento primoroso a quem está pagando a conta: saúde, segurança e educação cada vez melhores.

No entanto, o que se vê, independentemente do partido no poder, é um assalto à máquina operacional do Estado por meio de mais de 22 mil cargos comissionados ocupados (Nos EUA este número não passa de 200 para serem preenchidos por especialistas de confiança), geralmente, por pessoas inexperientes e que ocupam posições importantes com agendas próprias, o que custa caro à nação, não em função de seus salários, mas sim pelos prejuízos que provocam.

SUGESTÕES PARA MELHORIA DA MÁQUINA OPERACIONAL DO ESTADO

Um bom avanço para o próximo governo seria:

1. Estabelecer uma organização em nível de Estado para fazer e rever anualmente a formulação estratégica nacional, em função de novas realidades e as metas decorrentes para cada Ministério;

2. Estabelecer uma organização para avaliar o desempenho das políticas públicas e reestruturar continuamente os processos e a estrutura do governo;

3. Reduzir, na medida do politicamente possível, os cargos comissionados;

4. Evitar, na medida do politicamente possível, indicações políticas para diretorias de estatais e cargos de Secretário Geral de Ministério, inclusive, para baixo na hierarquia (como é feito hoje, por exemplo, na Receita e Polícia Federal);

5. Criar um órgão operacional em nível de estado para exercer as funções normalmente atribuídas aos setores de recursos humanos nas empresas, ou seja: educação e treinamento, avaliação de desempenho e feedback, recrutamento e seleção, desenvolvimento organizacional, entre outros;

6. Levar em cona que os melhores setores do Estado têm sempre uma carreira estruturada e escola associada: Forças Armadas, Polícia Federal, Receita Federal, Relações Exteriores etc. Porque não estruturamos as carreiras e instalamos escolas para treinamento contínuo do funcionalismo em todos os setores do Estado?

O país precisa de uma boa maquina operacional do Estado. Precisamos reforçar o Estado brasileiro para reduzir a volatilidade dos governos. Precisamos fortalecer nossas instituições.

VICENTE FALCONI, 74, é fundador e presidente do Conselho da Falconi Consultores de Resultado.

Via Folha de São Paulo em 02 de dezembro de 2014

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