Cooperativismo – este é o caminho para uma sociedade melhor?

Artigo por Shirlei Mesquita Sandim: advogada e vice-presidente de Controle Social do OSB – Rondonópolis

06 de fevereiro de 2019 19:59

A cooperação é da essência do ser humano e é responsável pela sobrevivência e evolução humana no mundo, possibilitando a dominação da natureza e transformando-a para atender às necessidades humanas, não só as básicas à sobrevivência, como as alimentares, de abrigo e proteção, mas também as que são oriundas da criatividade humana, as crenças, as ideologias que ditam o modo de viver.

Sem a cooperação, que é capaz de mobilizar pessoas estranhas entre si para atuarem a fim de alcançar um objetivo que irá ser utilizado e beneficiará outro a seu turno, o homem não passaria de mais uma espécie sob a face da Terra, fadado ao desaparecimento como tantas outras, como bem explica Yuval Noah Harari, na obra denominada Sapiens – Uma Breve História da Humanidade, indispensável para quem pretende ampliar o entendimento sobre a história humana na Terra. Assim, sem a cooperação e a possibilidade de abstração criativa do ser humano, não estaríamos hoje discutindo os mais diversos assuntos, como aqui faço nesta oportunidade.

Portanto, inexoravelmente, o cooperativismo faz parte da essência humana e, mesmo assim, é por diversas vezes negligenciado, mesmo após o estabelecimento de diretrizes pactuadas desde 1884, quando um grupo de vinte e oito membros, sendo vinte e sete homens e uma mulher, que ficaram conhecidos como os Probos de Rochdale, criaram a primeira cooperativa estruturada em sete princípios, e que direcionam o cooperativismo até os dias atuais, sendo eles: 1) adesão livre e voluntária; 2) controle, organização e gestão democrática pelos sócios; 3) participação econômica dos sócios; 4) autonomia e independência; 5) educação, capacitação e informação; 6) cooperação entre cooperativas; 7) preocupação com a comunidade. Naturalmente, não foi sem dificuldades que sua criação se deu, vez que houve um duro trabalho prévio de convencimento das pessoas envolvidas que aquele seria o caminho adequado para que superassem as muitas dificuldades para obter os bens essenciais para sua sobrevivência, cujo acesso era assaz dificultado pelo capitalismo selvagem instituído na era da revolução industrial, deixando muitas pessoas na miséria em razão da falta de empregos, já que as máquinas substituam várias pessoas e com o aumento da oferta de mão-de-obra, caiu gravemente o valor do salário pago, forçando pessoas a aceitarem trabalhar em situação de todo precária e insalubre.

O cooperativismo se mostrou, então, como um caminho onde a força empreendedora e de trabalho estava nas mãos dos próprios cooperados, que sentindo as consequências nefastas da exploração capitalista, vislumbraram um caminho diverso de prestigiar e valorizar a todos que se associam, visando um fim comum, repartindo os benefícios auferidos, se preocupando com a promoção das pessoas pelo conhecimento e educação, fomentando a democracia, com adoção do estímulo e participação de todos nas decisões a serem tomadas, já que cada pessoa, independentemente de quaisquer condições, tem direito a apenas um voto, sendo esta uma forma econômica de valorizar e priorizar o ser humano, que assume o protagonismo, ao invés de ser mais uma peça na grandiosa engrenagem da produção capitalista. Nesta visão cooperativa, que visa, por óbvio, um fim econômico, quer de produção ou trabalho, busca também a melhoria da comunidade em que se insere, transformando o seu ambiente social em prol de todos, construindo melhorias que extrapolam meros interesses econômicos da própria cooperativa e de seus membros. Ao valorizar a educação, promove as pessoas que passam a ter condições de melhor refletir e compreender o mundo, ampliando seus horizontes para enxergar outras possibilidades e oportunidades de auferir maiores benefícios que contribuirão para uma melhor qualidade de vida a todos. Valoriza a autonomia e a democracia, transformando sua atuação em verdadeiro exercício democrático, já que todos podem e devem participar e tomar decisões sobre os direcionamentos da cooperativa, por meio do voto que tem valor igual entre todos os membros.

Por certo, caro leitor, pode estar se perguntando: se este sistema é assim tão bom, por que ele ainda não ocupa um espaço maior na economia, que é, em sua maioria, explorada pelo sistema capitalista, com poucas pessoas proprietárias detendo em suas mãos a maior parcela das riquezas produzidas? Isto se dá, por vezes, pela falha de um princípio que se mostra fundamental, que é a educação, capacitação e informação. Você, com sinceridade, pode afirmar que conhece o cooperativismo? Sabe como ele surgiu e se desenvolveu? Sabe como ele está regulamentado? E você que já faz parte de uma cooperativa, participa efetivamente do que acontece? Exerce seu direito de conhecer, opinar e votar?

A cooperação entendida em seu sentido amplo de todos os humanos atuarem de forma a produzir uma gama de coisas que são úteis para os outros, possibilitou que chegássemos até aqui. Um futuro melhor? Dependerá, por certo, de nosso conhecimento da necessidade da cooperação e de seu desenvolvimento. Quem sabe, não deixaremos de ser homo sapiens e nos tornaremos homo cooperativae!

(*) Shirlei Mesquita Sandim é vice-presidente de Controle Social do Observatório Social do Brasil – Rondonópolis (MT), advogada, membro do Conselho Fiscal do Sicoob Cerrado

Via A Tribuna

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